quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Quase Famosos

Vergonha passei eu ontem quando um amigo polonês me escreve pelo Facebook: "Marta, você está bem, estou vendo uma guerra em São Paulo por causa do carnaval. Você está "safe"?". Ele vive em Varsóvia. E pela televisão ou internet estava vendo um cara invadir a votação, um monte forçando os portões, e um outro tanto derrubando os alambrados em uma avenida. Viu também um carro alegórico pegando fogo. Expliquei que vivo em outro bairro e que ele estava vendo uma manifestação típica de São Paulo: torcidas de futebol incitadas a fazer baderna pelos dirigentes das escolas de samba. Bandido mancomunado com bandido na tentativa de impedir a contagem de votos. Ele entendeu perfeitamente. Parece que "hooligans" são comuns na Polônia também. E me deu a notícia que vai ser pai e festejamos e esquecemos do caso. Mas me deu a noção de proporção. A notícia se espalhou pelo mundo e em todo lugar deve ter passado em algum momento a imagem bizarra do carinha rasgando os votos como quem bagunça um tabuleiro. Sabe quando a gente é criança e está jogando com alguém, esse alguém está perdendo e mela tudo derrubando as peças e misturando tudo com as mãos? Isso. O carnaval de São Paulo, tal qual uma criança mimada que não sabe perder, fez isso. Típico ato de paulistano. Paulistano tem que ser o primeiro, tem que estar por cima, tem que chegar antes. Paulistano tem que ser o melhor. Senão não brinca. Paulistano é o menino que joga mal mas é dono da bola. O carnaval de São Paulo, o desfile, é patético. Cheio de buracos, pobre. Passistas desbotadas pela ausência de sol. O ar-condicionado deixa a mulherada verde. Os silicones são menores também para não destoarem dentro das roupas abotoadas até o pescoço. E mesmo assim quer ser o tal. São Paulo não faz samba enredo. São Paulo faz samba bom, muito bom, mas não é samba-enredo. O samba de São Paulo é um samba de boteco, é a roda de samba. Uma delícia. Menor, pequeno, íntimo. É marchinha, é bloco. E o povo todo vai atrás sim. Aqui na Vila Madalena, se passa um caminhão tocando marchinhas de carnaval, junta uma multidão. "A estrela Dalva, no céu desponta", "de tanto levá, frechada do seu olhar", "vem jardineira, vem meu amor". Delícia total. Mas não, a prefeitura quer ser grande, fazer mais dinheiro. Por que não ser o Rio de Janeiro? Toma! Está agora nas páginas de todos os jornais do mundo como um lugar de carnaval patético sem noção, sem códigos de conduta próprios, sem ética própria. Sem alma, sem DNA.

6 comentários:

Daniel disse...

Quando viajei pra Europa em junho, o meu voo Rio-Frankfurt atrasou umas 2 horas. Nisso, um grupo de russos e poloneses ficou bebendo no embarque pra passar o tempo. Quando finalmente embarcamos, um polonês já tava pra lá de Gdansk e o voo atrasou mais ainda porque o comandante não queria voar com ele desmaiado. Ele foi convidado a se retirar e ir no próximo voo.

marta matui disse...

Polones é um lixo, hehehe. Por isso nos compreendem, rs.

Augusto Fernandes Sales disse...

Quando eu era moleque, meu irmão fazia isso. Não, nada relacionado ao Carnaval. Ele desligava o videogame quando eu estava ganhando...

Abraços...

Augusto
regthorpe.blogspot.com

marta matui disse...

Desculpe o exemplo do tabuleiro. Coisa antiga tabuleiro. Depois que escrevi fiquei pensando, na minha época se melava o jogo derrubando as peças mas como será que é hoje? Vc me respondeu Augusto!

Margot disse...

Toma! - Só essa palavra nos diz da sua indignação pelo ocorrido(como um todo)e de uma "doce vingança" na rasteira. Querer ser ou pelo menos "parecer" ser o que não é, nunca, nunca é uma boa opção. Ab.

guilhermino disse...

O assunto morreu, provavelmente vai ficar por isso mesmo e ano eleitoral a prefeitura vai gastar uma nota na "Cidade do Samba" paulistana, construindo galpões para as escolas lá na marginal.